Na imensidão de uma paisagem fantástica

Depois de um longo dia de 24km de caminhada estávamos todos encharcados pela chuva que não dava trégua. Andávamos já havia cinco dias sempre em condições adversas, névoas que tiravam nossa visibilidade,  1.700 metros de desnível em relevo acidentado e um frio que não imaginávamos encontrar por estarmos tão próximos da linha do Equador.

Ainda no primeiro dia de caminhada já se pode ver o Monte Roraima, ainda bem ao longe e praticamente sempre encoberto por nuvens carregadas.

Ainda no primeiro dia de caminhada já se pode ver o Monte Roraima, ainda bem ao longe e praticamente sempre encoberto por nuvens carregadas.

Era nítido o cansaço de todos os oito participantes da expedição naquele fim de dia, ainda mais por sabermos que continuaríamos sem banho, dormindo no chão duro e ambiente úmido da gruta que nos servia de abrigo. Mesmo assim, ao anoitecer todos nós nos juntamos ao nosso guia e aos índios que nos auxiliavam, e  tivemos um jantar animado de histórias místicas sobre a região. Todos ao redor do fogareiro improvisado, agachados sob um teto de pedra baixo, no cômodo da gruta utilizado como cozinha. E foi ali, tomando um chá quente feito com flores carnívoras recém coletadas que ouvi a melhor explicação sobre o que se sente em cima do Monte Roraima. Em poucas palavras, foi assim que Rubens, o mais novo do grupo e estreante em expedições, descreveu o que sentia: “Se eu disser que o Monte Roraima é bonito vou estar mentindo. Por que o bonito é algo que se compare com outra coisa, com o feio, o menos bonito. E nada que eu já vi na vida se parece com o que eu vi hoje. Aqui é um lugar surreal.”

Primeira noite, acampamento rio Tek. Céu encoberto de nuvens anunciando o temporal que viria no meio da madrugada.

Primeira noite, acampamento rio Tek. Céu encoberto de nuvens anunciando o temporal que viria no meio da madrugada.

De fato, o Monte Roraima não é uma montanha qualquer. É considerado uma montanha sagrada por toda a etnia de índios Pemón, que vive há séculos nas região. Para eles, ali é a casa do deus Makunaima, criador do mundo.  É o gigante verde-azulado, significado da palavra Roraima no idioma indígena, pela coloração de suas rochas que chegam a atingir mais de 500 metros em um verdadeiro paredão vertical. O El Dorado descrito em 1844 pelo botâncio alemão  Richard Schomburgk, que, como outros à sua época,  fez a extenuante expedição para chegar na base da montanha, não ter condições de subir até o topo e ter de voltar pra casa.

Segundo dia de expedição, aproximando-se da enorme popa de pedra do Monte Roraima.

Segundo dia de expedição, aproximando-se da enorme popa de pedra do Monte Roraima.

Depois dos relatos de Schomburgk, a fervilhante comunidade cientifica europeia estava ansiosa por descobrir o que haveria em cima deste misterioso tepuy, como são chamadas estas montanhas em forma de mesa que povoam às dezenas a região, sendo o Roraima a maior e mais alta de todos.  Os naturalistas estavam em frenesi com as recentes publicações sobre a teoria de Wallace e Darwin sobre a evolução das espécies, e muito se especulava sobre o que poderia ser encontrado lá em cima, numa região em que homem nenhum jamais havia tocado.

Mas, se subir esta montanha não é tarefa das mais fáceis até hoje, quem dirá no século XIX, quando a região ainda mal era conhecida. Os únicos que realmente conheciam a região eram esparsas tribos indígenas que respeitavam tanto a montanha que não se atreviam a enfrentá-la. A missão era tão difícil que foi só em dezembro de 1884 que finalmente sua paisagem foi revelada.

Comemoração ao chegar no topo do Roraima, em cima da pedra Maverick

Para isso, Sir Edvard im Thurn precisou de exatos 69 dias de expedição (sem contar o caminho de volta) para atravessar a densa floresta amazônica da Guiana até chegar à savana venezuelana, construir um grande acampamento na base do monte e finalmente chegar ao seu cume, não sem muitas dificuldades. A rota escolhida por ele é a única que permite a chegada ao topo sem escalada até hoje.

Nossa expedição, claro, foi bem menos laboriosa. A começar por não precisarmos sair em canoas de cedro floresta adentro mas, ao invés disso, fazermos um “river tour” para ver o Sol se por às margens do Rio Branco, em Boa Vista. Também não precisamos acampar na floresta amazônica. Atravessamos a fronteira para a Venezuela, e de lá, em Santa Elena de Uairén, subimos nos jipes e entramos nas estradas de terra da gran sabana.

River Tour, um passeio pelo Rio Branco ao entardecer.

River Tour, um passeio pelo Rio Branco ao entardecer.

Começamos nossa caminhada no mesmo dia que deixamos Boa Vista, ao meio dia de calor equatorial que se misturava com a garoa que caia bem de leve. Por sorte, por que durante todo o caminho não há uma sombra sequer, numa grande savana amarela-esverdeada, com pequenos morros por toda parte que vão minando a resistência pouco a pouco.

Apesar de ser uma paisagem aparentemente pobre, a savana tem suas muitas belezas, talvez amplificadas pela ansiedade que eu estava de por a mochila nas costas e começar a andar. Ao contrário de Everard im Thurn, eu não estava há dias sofrendo na floresta amazônica, mas compartilho muito da sensação que ele teve quando viu pela primeira vez a savana: “Ela corre ao longo das montanhas, descendo suas encostas em planícies bem regadas e verdes até que se perca, aos nossos olhos, na distância do azul enevoado. Um vento agradavelmente fresco, quase frio, carregado com doces aromas, que fazia correr algumas nuvens de luz em todo o céu azul brilhante (o que não era necessariamente o nosso caso), e as sombras das nuvens correndo sobre as montanhas e vales completou a intensa beleza da cena.” Foi como ele descreveu a região ao deparar-se com ela, depois de terríveis dias dentro da selva.

Ao final do dia chegamos ao acampamento rio Tek, com uma vista panorâmica de toda a popa do Roraima, chamada assim por ser muito mais larga do que a outra ponta da montanha, que termina em uma espécie de bico de navio e, por isso, é chamado de proa. Ao seu lado pode-se ver também o Kukenán, um tepuy menor e muito menos explorado, cheio de mistérios nas histórias contadas pelos índios. Segundo eles, ali moram os espíritos dos guerreiros Pemóns.

Monte Kukenan, visto do acampamento Rio Tek

Monte Kukenan, visto do acampamento Rio Tek

Do acampamento ainda não é possível termos uma ideia das dificuldades que iríamos enfrentar nos próximos dias, não só pela distância que ainda é grande, como também pelas nuvens constantes que em minutos escondem totalmente as duas montanhas da nossa visão. Mas não era hora de se preocupar com os dias seguintes e sim de tomar um refrescante banho de rio, jantar e dormir o melhor possível. Aliás, no dia seguinte me disseram que durante a noite caiu um grande temporal, mas confesso não ter ouvido nem os roncos do Luis , meu parceiro de expedição, dentro da barraca.

 

O segundo dia de caminhada nos leva até a base da montanha, sendo consideravelmente mais isolado, difícil e bonito que o dia anterior. O relevo vai ficando mais inclinado e acidentado à medida que se aproxima do acampamento base. Uma grande quantidade de rochas que um dia rolaram montanha abaixo e uma forte neblina que diminuía consideravelmente nossa visibilidade davam um ar sombrio à paisagem. Em alguns momentos ao me afastar um pouco do grupo conseguia me sentir totalmente sozinho. Não via ninguém e não ouvia nada além do vento, tendo como referência apenas o caminho sempre bem marcado à minha frente. Momentos, aliás, muito propícios pensar na vida, em como tudo aquilo pode ter surgido, tudo que já deve ter se passado em cima daquele paredão imenso que estava cada vez mais perto.

Mte Roraima (15)

Segundo dia de expedição, aproximando-se da enorme popa de pedra do Monte Roraima.

Muitos dias depois de voltar pra casa, lendo o extenso relato da primeira ascensão do Roraima, entendi parte daquilo que podia sentir nestes momentos de admiração à montanha. Em sua expedição, muitos dos índios que acompanhavam Thurn simplesmente se negaram à ajudá-lo na subida, pelo temor e veneração que tinham à ela. Ele próprio conta que poucas foram as vezes em que não havia uma nuvem encobrindo sua visão, fato que os índios explicaram como sendo um hábito da montanha (sempre humanizada) de não se deixar ser vista pelos homens brancos.

Chegamos no meio da tarde ao acampamento base. Naquela noite provamos um típico prato indígena local: tanajuras fritas, caçadas em meio à um enorme ataque da saúvas pelo nosso cozinheiro Eduardo, índio de 27 anos e que desde os 15 sobe a montanha diversas vezes ao ano. Foi uma boa experiência, o que não significa ter sido saborosa! A cabeça o o tórax da enorme formiga, ainda quentes da frigideira, lembram aqueles milhos de pipoca que ficam queimados sem estourar no fundo da panela. Já o abdome, grande e repleto de óvulos de uma formiga rainha prestes a criar um novo formigueiro, parece uma massa pastosa e oleosa, sem um gosto muito bem definido. O mais próximo que o sabor me lembrou foi uma colherada de cérebro de porco que provei na patagônia chilena, outra experiência pouco saborosa que já tive. Mas, como me dizia um amigo espanhol: Hay que probar!

Rango especialmpara quem se prepara para chegar ao topo do Roraima no dia seguinte. Contando como petiscos enormes formigas tanajuras.

Rango especial para quem se prepara para chegar ao topo do Roraima no dia seguinte. Contando como petiscos enormes formigas tanajuras.

A noite, enquanto estávamos reunidos para (agora sim) comermos um reforçado e saboroso prato de comida, o clima era de bastante descontração enquanto falávamos sobre nossas dores no corpo e toda sorte de falta de comodidades às quais já estávamos quase acostumados. Mas a floresta densa e o paredão logo ao lado nos preocupava. Se no dia que estava acabando já havíamos subido cerca de 750m em altitude, o dia seguinte nos reservava quase mil, em uma subida muitas vezes mais acentuada.

Aliás, é justamente ela que impediu por décadas o acesso ao topo do Roraima. A vegetação, que lá no século XIX era completamente intocada, hoje tem seus caminhos abertos, o que facilita muito. Mas pelo menos um ponto ainda continua tal qual era: o passo das lágrimas. Uma enorme cachoeira que desaba em rochas soltas próximas ao desfiladeiro, com a queda dágua ainda mais forte quando chove no dia anterior (o que era o nosso caso, para nossa alegria).

Ainda que esta seja a parte mais temida da subida, o desgaste maior está logo no começo, quando é preciso superar um trecho de muita lama e extremamente íngreme. Para cada passo que se dá é preciso usar as mãos para se apoiar nos degraus superiores e manter um certo equilíbrio, já que a mochila pesada nas costas tende a nos levar para trás. As nuvens, que lá de baixo encobrem constantemente o paredão, agora encobrem constantemente a savana, uma vez que estamos exatamente dentro delas. Tanto é que quando a subida pela floresta acaba e começam as rochas, é impossível se ter uma ideia de quanto ainda há de caminho para cima, ou de quanto já deixamos de floresta para baixo. Tudo ali se resumia à névoa, chuva e subida. Combinação que eu, particularmente, aprecio muito!

Chuva e subida, o dia do ataque ao cume do Roraima.

Chuva e subida, o dia do ataque ao cume do Roraima.

Enfim, chegamos ao temido passo das lágrimas. Mas passamos por ele tão rápido e sem grandes dificuldades que mal deixou a impressão de perigo, assim como ocorreu para Everard im Thurn. Antes de começar a subir ele descreveu esta cachoeira como o ponto mais duvidoso de todos, de onde caia um fluxo considerável de água que despencava do alto do Roraima, se transformando em uma abertura profunda e impenetrável para quem o via de baixo, mas voltando a ser um caminho bastante acessível até o cume, desde que pudesse ser ultrapassado. Quando, por fim, realmente se depararam com esta queda dágua de centenas de metros ela não parecia mais do que uma forte chuva que não oferecia grandes riscos. E assim foi para nós também.

 

Dali em diante, precisamos de pouco mais de meia hora para finalmente alcançarmos o cume. Fazia muito frio, não só pelo vento e pela chuva, mas também pelos quase 2.800 metros de altitude aos quais acabávamos de chegar. E, se o leitor me permite, irei usar novamente as palavras de nosso  primeiro desbravador para descrever o que eu e mais sete pessoas acabavam de contemplar pela primeira vez em nossas vidas, da mesma forma que Thurn o descreveu pela primeira vez desde que a Terra havia se formada:

Chegar ao topo do Roraima pode ser comemorado como um grande premio.

Chegar ao topo do Roraima pode ser comemorado como um grande premio.

“A primeira impressão foi a incapacidade mental de compreender aquele ambiente. A próxima foi a de entrar em um estranho país de pesadelos, onde uma paisagem descontroladamente fantástica havia sido formada, em um dia terrível e tempestuoso, quando nuvens quebradas e caóticas haviam sido endurecidas em um único instante em pedra. Por todos os lados eram rochas de formas aparentemente impossíveis, em posições que pareciam desafiar todas as leis da gravidade. Rochas em grupos, solitárias, em terraços, colunas, torres,  muralhas, pirâmides. Pedras ridículas em cada ponto, com inúmeras caricaturas aparentes de faces e formas de homens e animais, aparencias de guarda-chuvas,  igrejas, tartarugas e de inúmeros outros objetos dos mais incongruentes e inesperados. E entre as rochas, em espaços nunca muito grandes, locais de pura areia amarela, pequenos rios, cachoeiras e banheiras de águas puras. Aqui e ali alguns pequenos pântanos, com uma vegetação sempre de tamanhos e formas reduzidas como miniaturas. Nenhuma árvore. Nenhum sinal visivel de qualquer animal, tão intensamente quieto como se nunca nenhum houvesse jamais estado lá.”

 

Estivemos lá em cima por quatro dias percorrendo grande parte da superfície da montanha, e nenhuma descrição poderia ser tão poética e ao mesmo tempo precisa quanto esta feita mais de um século atrás. No entanto, dadas as dificuldades da subida, Thurn passou apenas algumas horas no topo da montanha, o que me deixa a obrigação de ir além de seus relatos.

Durante boa parte dos dias de caminhada em cima do tepuy Roraima foram debaixo de chuva e névoa, que davam um tom ainda mais surreal à tudo que nos cercava.

Durante boa parte dos dias de caminhada em cima do tepuy Roraima foram debaixo de chuva e névoa, que davam um tom ainda mais surreal à tudo que nos cercava.

No próprio dia da subida, após nos alojarmos na nossa “gruta hotel”, o clima nos foi generoso e permitiu que fizéssemos uma breve expedição ao ponto culminante da montanha. Não é uma grande ascensão, pois a montanha é basicamente plana. Talvez o mais interessante seja o fato de que este ponto esteja exatamente na borda do precipício, em cima da formação chamada de Pedra Maverick, por ter a forma do lendário carro da Ford lançado nos anos 70. Chegamos sobre a “lataria de pedra”  já no começo da noite e com o tempo virando novamente, não sendo possível enchergar nada além de cinco ou dez metros à frente. Aliás, fato que se tornaria rotineiro nos dias que viriam. Mas foi um grande momento de contemplação de uma natureza bruta e um silêncio absoluto.

 

No dia seguinte nos dirigimos ao ponto mais distante da expedição, rumo à tríplice fronteira entre a Venezuela, Brasil e Guiana. A demarcação entre  estes limites fronteiriços foi acordada ainda no fim do século XIX, porém sem que houvesse um marco que a determinasse. As fronteiras estariam fixadas, então, pela divisão das águas que alimentassem a bacia hidrográfica dos rios Orinoco (território venezuelano), Rio Esequibo (Guiana) e Rio Branco (Brasil). A demarcação do ponto geodésico foi feita de fato somente em 1934, naquele local tão inóspito em que estávamos naquele instante. Por dar origem à afluentes de três grandes rios, o Monte Roraima também é conhecido como “a mãe das águas”. A chuva constante durante praticamente o ano todo faz com que ele seja um reservatório de milhões de litros d’água que despencam de diversoso pontos em cachoeiras que podem ser vistas de muito longe na savana.

Fim de tarde no Monte Roraima, com a pedra Maverick, o ponto mais alto do tepuy, ao fundo.

Muito próximo dali passamos pelo vale dos cristais, afloramento de uma camada sedimentar de onde surgem cristais de quartzo por todos os lados que se olhe. Vale ressaltar que, por mais que sejam abundantes e lindos, devem ser preservados e deixados ali, justamente onde estão tranquilos desde muito antes dos primeiros dinossauros habitarem a Terra. E também para evitar constrangimentos, pois no retorno à portaria do parque todas as mochilas são revistadas e nenhum tipo de material de cima do Roraima pode ser levado embora como lembrança. Justo.

Mte Roraima (54)

Vale dos cristais, no topo do Monte Roraima

Por fim, uma passagem bastante breve por um grande fosso de alguns metros de diâmetro e tantos outros  de profundidade, de onde se pode observar as águas de um pequeno riacho correrem lá embaixo. O tempo estava pouco amistoso e desencorajou o banho, que não seria uma má ideia em outra situação metereológica. Almoçamos ali um prato rápido de arroz carreteiro com chuva e suco, e dali retornamos para nosso abrigo, que havia ficado quilômetros atrás.

 

Nosso terceiro dia em cima do topo seria o último de exploração. Antes das seis da manhã todos já estavam fora das barracas e o clima não era nada animador. Chovia e fazia ainda mais frio do que no dia anterior. Iríamos visitar as ventanas, locais de onde em teoria se pode avistar todo o horizonte à frente do Roraima, com o Kukenán ao lado e savana e floresta à se perder de vista. Crentes de que o dia estava perdido, aceitamos a proposta do Léo, nosso guia, de visitarmos uma caverna habitada por pássaros Guácharos.  A caverna de arenito tem centenas de metros de comprimento, com salões hora grandes o suficiente para estarmos todos juntos e em pé, hora tão pequenos que tínhamos que passar um a um rastejando em túneis de alguns metros. Dentro dela um rio nos acompanhava e nos obrigou a uma pequena escalada para descermos uma de suas cachoeiras. Uma sensação indescritível estar dezenas de metros abaixo e adentro da superfície de uma montanha de bilhões de anos de idade. As ventanas foram visitadas, talvez mais para cumprirmos um protocolo daquilo que havíamos planejado, mas pela falta total de visibilidade acabaram por se tornar secundárias perto da experiência subterrânea. Por fim, passamos por uma região com diversas jacuzzis  naturais, obviamente nada aquecidas, o que intimidou a maioria de nós. Eu, que há dias me recusava a tomar banho no fio de água que caia perto de nosso “hotel”, não pensei nem cinco vezes e escolhi uma que achei mais acolhedora para fazer o merecido asseio corporal.

Grupo de Monte Roraima no Ponto Triplo, divisas entre Venezuela, Brasil e Guiana

Terminava ali nossa experiência em cima de um grande monumento da história do planeta. É difícil pensar em números tão grandes, mas a idade daquela montanha  é muito maior do que os dinossauros, que se extinguiram à cerca de 65 milhões de anos atrás, ou da divisão da África e da America do Sul, com mais de 150 milhões de anos. Na verdade, estes dois eventos são crianças perto do surgimentos destes tepuys, que se ergueram há cerca de 2 bilhões de anos (ou 2.000 milhões de anos!), quando nem plantas e animais haviam surgido no planeta. Quanto às expectativas dos naturalistas do século XIX, não existem ali os dinossauros que Arthur Conan Doyle descrevia em seu livro “O Mundo Perdido”, grande best seller inspirado nos relatos de Thurn. Mas sim uma fauna e flora exclusivas, que evoluíram isoladas do resto das que cresciam abaixo da montanha. Os animais são raros e difíceis de se encontrar, sendo o mais comum uma pequena rã do tamanho de uma unha, negra como as rochas, que praticamente as deixa imperceptíveis. Sem dúvida, um paraíso para naturalistas e evolucionistas.

Mte Roraima (53)

Paisagens de uma verdadeira selva de pedras.

A volta é feita em apenas dois dias, sendo o primeiro uma longa caminhada até o Rio Tek, o que incluía a difícil tarefa de descer tudo aquilo que subimos dias antes. E não, pra baixo nem todo santo ajuda!

 

Durante a subida mal reparei no caminho que estava atravessando, tanto pelas dificuldades do percurso quanto pela ansiedade de chegar logo ao topo. Mas enquanto descia consegui olhar com mais calma para tudo que estava ficando para trás. O passo das lágrimas agora pode ser contemplado não só como um grande obstáculo para quem quer subir. Parecia agora, aos meus olhos, uma grande passagem para outro mundo que está logo além dele, como se a partir dali estivéssemos sendo autorizados por Makunaima a conhecer seu grande templo, a mãe das águas. Metros adiante do passo, uma enorme rocha de talvez 20 ou 30 metros de altura toma formas humanas. Dizem os índios que é a personificação de seu Deus, com uma enorme coroa de arbustos sobre sua cabeça, e uma fina torre de rocha ao seu lado esquerdo, erguido tão ereto como o próprio busto ao lado e que não pode ser outra coisa se não um grande cajado. Sentia a sensação de estar deixando um mundo encantado e voltando ao mundo real, mas levando comigo um respeito e admiração à natureza ao mesmo tempo bruta e delicada.

 

Texto e fotos por Otávio Lino

Publicado originalmente no site da revista Go Outside

4 Comentários em: “Na imensidão de uma paisagem fantástica

  1. Que relato gostoso de se ler! Esse movimento entre suas impressões e as de Thurn tornam muito rico o passeio pelo quecia acontecendo! Que livro é esse? Interessante! Como foi a sensação do espírito livre em terra com idade bilenar? Parabéns! Obrigada

  2. Adorei seu relato! Dá prá sentir a magia e beleza do local. Deu vontade de encarar essa aventura!
    Valeu por compartilhar conosco! Parabéns pela conquista \o/

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