Treino para competições: altitude traz melhor desempenho?

Muitas pessoas que praticam trekking em alta montanha buscam qualidade de vida, fugir um pouco do dia a dia agitado das grandes cidades ou enfrentar um desafio à flor da pele. Diversos corredores utilizam a altitude também como treino para competições. O melhor cenário é quando você consegue unir os dois, e o campo base do Everest talvez seja uma das melhores escolhas. Além de trilhas com grande nível de dificuldade, bastante desnível altimétrico e boas distâncias a percorrer, também existem templos budistas, vistas maravilhosas e uma população local super receptiva.

Mas será que as grandes alturas de fato geram resultados relevantes para quem treina corrida? Para investigar um pouco disso, convidamos Aulus Sellmer, treinador já com muita quilometragem nas pernas (veja seu currículo no final da matéria), para contar um pouco de sua experiência no assunto.

 

Altitude traz melhor desempenho?

por Aulus Sellmer

Minha coluna vai fugir um pouco de assuntos corriqueiros ao nível do mar e vamos para grandes altitudes. Quando escrevo grandes altitudes, elas realmente são as maiores do planeta. Em 2015, fiz parte da Expedição Himalaia, um grupo de profissionais da montanha, que tinha como objetivo ir até o acampamento-base, a 5.500 metros de altitude. O topo do Monte Everest, o maior do mundo, chega a quase 9.000 metros de altitude.

Foram meses de treinamento específico de fortalecimento muscular e treinos aeróbios. E não foi à toa, pois, conforme planejado, atingimos os 5.500 metros de altitude – chegamos até a passar um pouco desta altitude.

Campo Base do Evereste

 

Boost psicológico

Tendo em vista meu retorno ao Brasil, aproveitei para checar os reais benefícios de se treinar em altitudes elevadas. Inscrevi-me numa prova de 10k para correr logo ao desembarcar.

Quando um indivíduo retorna de uma altitude elevada para uma mais baixa, seu organismo conta com maior quantidade de glóbulos vermelhos. Isso reflete diretamente no desempenho físico, pois há mais oxigênio circulando nos músculos, ou seja, mais energia para suportar atividades físicas. No meu caso, fiquei com esse “boost” por pelo menos 10 dias após o retorno do Himalaia.

No dia da prova, estava ansioso pelo resultado: será que a grande quantidade de glóbulos vermelhos no meu sangue realmente iria me ajudar a ter um melhor desempenho? Ou pelo menos não sofrer tanto na intensidade? No final da prova, tive uma melhora, mas ela foi, em minha opinião, insignificante.

Depois deste teste que realizei, somente comprovei que treinar em altitude para depois competir ao nível do mar, pode sim no aspecto psicológico trazer benefícios, mas do ponto de vista fisiológico não funcionou.

 

Ganhos discutíveis

Apesar de ser conhecido hoje em dia, treinamentos em altitude ainda são muito questionados quanto à sua efetividade prática, principalmente se o objetivo for o de melhorar a performance ao nível do mar, e não o de aclimatar o atleta à altitude. O que se sabe, com certeza, é que realizar “períodos de treinamento em altitude” é algo que a mídia adora e que fascina o imaginário dos torcedores. Isso também mostra ao público a seriedade do trabalho realizado pelo profissional – que utiliza qualquer subsídio para ganhar décimos ou centésimos de segundo.

Minha conclusão é que valeu muito à pena ter ido até quase o topo do mundo. Mas treinar em altitude para depois participar de provas ao nível do mar pode não ser tão vantajoso assim, por todo o custo do processo.

Mas se você morar e treinar em altitudes acima de 3.965 metros, a aclimatação começa desde a infância. Seu tórax será maior, o tamanho do corpo diminuído e o coração – principalmente o lado direito – muito expandido. Características estas – especialmente o tórax e o coração aumentados – decorrentes principalmente do aumento do trabalho dos músculos envolvidos na respiração e do bombeamento do coração a fim de compensar a rarefação. A disponibilidade do oxigênio pelo sangue aos tecidos é muito facilitada. Essas modificações ao longo da vida permitem que eles consigam viver e não apenas sobreviver em lugares altíssimos.

Continue realizando seus treinos normalmente onde mora, pois treinar em altitude pode mudar tanto a sua vida que no final das contas o ganho não será tão grande assim.

Já quanto a conhecer o Everest, isso sim sem dúvida será uma viagem que fará grandes diferenças na sua vida. Os meses de março, abril e outubro são os melhores do ano para fazer a trilha até o campo base do Everest. Aproveite os dias de caminhada para se esbaldar na mística, natureza e grandiosidade da maior montanha do mundo.

 

Aulus Sellmer é bacharel em Esporte pela Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (EEFEUSP. Tem especialização em treinamento desportivo pela USP, marketing esportivo pela UCLA Berkeley EUA e administração esportiva pela FGV-SP. Atualmente é pós-graduando no curso MBA Qualidade de Vida em Gestão Corporativa pela Universidade São Camilo e proprietário da assessoria esportiva 4any1. É também colunista da rádio e site Eldorado FM, Rádio Estadão AM/FM, revista Contra Relógio, além de realizar coberturas de eventos radicais pela Eldorado FM.

 

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